quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Sobre a bebida de fogo servida no crânio da amada

Abaixo segue a transcrição de mais uma obra poética do círculo surreal e psicótico de comparsas do velho Matusalém.

Sobre a bebida de fogo servida no crânio da amada

"Erradamente ele caminhava

era assim que as coisas seguiam

o brotar caótico de um verme

corroia sua alma infame

dentro da sua cachola 

encontrava-se a podridão humana 

mas nem sempre fora assim

vez ou outra molhava a massa cinzenta

em poesias românticas 

e parava para admirar as belas ancas da sua moça

e as vezes até surrupiava rosas

dos quintais vizinhos e dava a ela

mas voltava sempre a mediocridade de seu ser

contemplava o mundo com indiferença

essa era sua arma

e mergulhava dentro da garrafa

e sorria desesperadamente com cara de louco

tinha medo das coisas todas que não conhecia

e fritava os neurônios com azeite de oliva

a monotonia dominical era eterna

e arrancava os cabelos vermelhos que brotavam em sua cabeça

tinha nos olhos um belo vazio 

queria era morde-lhe a bunda

e chupar-lhe os lábios

pequena violência primitiva cheia de amor

e uma dose de ódio

e quem sabe de conhaque, e um pouco de ópio

era assim desde que fora arrancado do útero

como todos os demais, era nada e indefeso

buscava a sorte nos trevos de quatro folha

mas nunca achava nada que lhe satisfazia

quando a beijou por eternos segundos ficou em paz

tudo voltou a ocioso viver depois disso

ele foi urinar, uma urina cor de rosa e brilhante

e seu corpo desmantelava-se

como se fosse uma lesma coberta de sal

voltou a dormir e desenhar nas paredes

e escrever falsos poemas de amor doentio

e lamber cubos de gelo

como se fosse peitos de lindas ninfas

e nada mais satisfazia sua necessidade mórbida

de ser um ser comum

queria a loucura de todos mortais

e um romance de Shakespeare

mas acabava sempre caindo nos contos libertinos

e chorava lágrimas alcoólicas e invisíveis

apenas os bobos da corte percebiam

e depois matou um coelho

e comeu a carne, meio crua

com cheiro de alho e laranja

as amebas vez ou outra passeavam em seu colchão

ele ficava meditando sobre os horrores da guerra das máquinas 

ainda era forte os resquícios da tragédia que ainda não acontecera

e a morte do deus gordo causou-lhe 

uma estranha felicidade

e ele foi tomar banho

e depois se jogou da janela

mas não caiu...uma pomba segurou-o

e engoliu-o 

e um jacaré engoliu a pomba

caído num abismo escuro

escutava uma música estranha

tentou arrancar uma orelha

mas não conseguiu

a faca sem fio arrancou-lhe um dedo

um gemido silencioso 

acariciou a bela dama

o dedo ainda sangrando

o sangue coagulando

tag

um dedo de sangue brotando

sorveu a alma dela

como se fosse um sorvete 

ela até gostou por uns instantes

mas deixou-o na incerteza

ele confuso 

vomitou tudo que havia na sua mente

depois cozinhou

e comeu , e dividiu com os pássaros azuis

e viu nascer o sol

e por momento sentiu-se humano, fraco e feliz

surrealmente a coisa toda mudou

caiu sobre ele

uma chuva de manuscritos