Abaixo segue a transcrição de mais uma obra poética do círculo surreal e psicótico de comparsas do velho Matusalém.
Sobre a bebida de fogo servida no crânio da amada
"Erradamente ele caminhava
era assim que as coisas seguiam
o brotar caótico de um verme
corroia sua alma infame
dentro da sua cachola
encontrava-se a podridão humana
mas nem sempre fora assim
vez ou outra molhava a massa cinzenta
em poesias românticas
e parava para admirar as belas ancas da sua moça
e as vezes até surrupiava rosas
dos quintais vizinhos e dava a ela
mas voltava sempre a mediocridade de seu ser
contemplava o mundo com indiferença
essa era sua arma
e mergulhava dentro da garrafa
e sorria desesperadamente com cara de louco
tinha medo das coisas todas que não conhecia
e fritava os neurônios com azeite de oliva
a monotonia dominical era eterna
e arrancava os cabelos vermelhos que brotavam em sua cabeça
tinha nos olhos um belo vazio
queria era morde-lhe a bunda
e chupar-lhe os lábios
pequena violência primitiva cheia de amor
e uma dose de ódio
e quem sabe de conhaque, e um pouco de ópio
era assim desde que fora arrancado do útero
como todos os demais, era nada e indefeso
buscava a sorte nos trevos de quatro folha
mas nunca achava nada que lhe satisfazia
quando a beijou por eternos segundos ficou em paz
tudo voltou a ocioso viver depois disso
ele foi urinar, uma urina cor de rosa e brilhante
e seu corpo desmantelava-se
como se fosse uma lesma coberta de sal
voltou a dormir e desenhar nas paredes
e escrever falsos poemas de amor doentio
e lamber cubos de gelo
como se fosse peitos de lindas ninfas
e nada mais satisfazia sua necessidade mórbida
de ser um ser comum
queria a loucura de todos mortais
e um romance de Shakespeare
mas acabava sempre caindo nos contos libertinos
e chorava lágrimas alcoólicas e invisíveis
apenas os bobos da corte percebiam
e depois matou um coelho
e comeu a carne, meio crua
com cheiro de alho e laranja
as amebas vez ou outra passeavam em seu colchão
ele ficava meditando sobre os horrores da guerra das máquinas
ainda era forte os resquícios da tragédia que ainda não acontecera
e a morte do deus gordo causou-lhe
uma estranha felicidade
e ele foi tomar banho
e depois se jogou da janela
mas não caiu...uma pomba segurou-o
e engoliu-o
e um jacaré engoliu a pomba
caído num abismo escuro
escutava uma música estranha
tentou arrancar uma orelha
mas não conseguiu
a faca sem fio arrancou-lhe um dedo
um gemido silencioso
acariciou a bela dama
o dedo ainda sangrando
o sangue coagulando
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um dedo de sangue brotando
sorveu a alma dela
como se fosse um sorvete
ela até gostou por uns instantes
mas deixou-o na incerteza
ele confuso
vomitou tudo que havia na sua mente
depois cozinhou
e comeu , e dividiu com os pássaros azuis
e viu nascer o sol
e por momento sentiu-se humano, fraco e feliz
surrealmente a coisa toda mudou
caiu sobre ele
uma chuva de manuscritos